REFORMULEI A MINHA RESPOSTA AO COMUNICADO DOS CIRURGIÕES DO CCT
Tive conhecimento de um comunicado de todos excepto um dos meus colegas, remetido a agência Lusa em 2 de Julho de 2009, em que afirmam que não se revêem e que repudiam as minhas críticas aos Órgãos de Gestão do Hospital de S. João e ao Serviço. Visto que o referido comunicado visa-me directamente, venho exercer o meu direito de resposta. Alguns comentários:
Estive quieto desde o referido comunicado, tendo cessado a greve de fome por observância aos meus escrúpulos democráticos. Quis esperar calmamente durante estes dias, porque imaginei que, já que tinham se imiscuído para repudiar críticas feitas a administração do hospital, críticas essas que nunca lhes foram dirigidas, viriam contribuir para encontrarmos uma solução para o problema. Engano meu. Desde o referido comunicado não fui contacto por nenhum deles (excepto o cirurgião que não assinou o comunicado, que tem tentado activamente intermediar o caso). Aliás, muitos nunca mostraram qualquer interesse em resolver o problema. Quando quis colocara-lhes a questão e pedir-lhes auxílio, diziam-me invariavelmente, que o assunto era entre eu e a administração do hospital e que eles não se iram envolver. Essa foi a atitude que muitos deles mantiveram. Completo desinteresse.
Tentei junto do Director de Serviço marcarmos uma reunião para discutirmos e tentarmos chegar a uma solução para o caso, este recusou, dizendo que o problema é entre eu e o hospital e que os outros não se irão imiscuir! Palavra de honra, terão alguma noção do ridículo dessas contradições?
Outros dos que assinaram o comunicado (Prof. Adelino Leite Moreira, José Pinheiro Torres, Vítor Monteiro, Jorge Casanova) manifestaram em muitas ocasiões a sua indignação e discordância com os métodos usados pelos dirigentes do Hospital, nomeadamente o meu esvaziamento de funções e o meu confinamento ao Gabinete Médico.
Alguns dos referidos (José Pinheiro Torres, Vítor Monteiro, Jorge Casanova), inclusive, tentaram uma posição de mediação para o problema, tentando convencer o meu director de serviço a deixar-me fazer a valência de Cirurgia Geral noutro Hospital ou transferir-me para um outro serviço e disseram por várias vezes que a minha situação era insustentável e inadmissível. Muitos deles admitiram ainda que era muito provável que fossem punidos caso um dia desafiassem a actual administração do Hospital, que é o que seria de esperar com a actual administração;
Muito me espanta que agora venham dizer que repudiam as minhas críticas aos dirigentes do Hospital e ao meu director de serviço, já que durante todo este processo, nunca os envolvi.
Como podem repudiar as minhas críticas aos dirigentes do Hospital de me terem esvaziado de funções e colocado num gabinete médico durante três meses? Como podem dizer que repudiam as críticas de um colega que protesta contra este tratamento arbitrário e discriminatório? Como podem ter a coragem de me manifestar solidariedade num dia e voltar-me as costas noutro? A palavra para caracterizar este acto toda a gente conhece, mas é motivada por cobardia e calculismo. Depreendo então que agora assumem que concordam com a medida da direcção clínica do hospital. Mas volto a repetir, muitos deles manifestaram a sua solidariedade e indignação pelo tratamento a que eu estava a ser sujeito, embora hoje já não tenham a coragem para o admitir.
Uma explicação pela sua tomada de posição é a solidariedade pelo Director de Serviço que já é um colega deles há décadas. Também compreendo que se sintam visados indirectamente nas críticas que fiz ao Serviço, mas não vejo nada mais além disso e, repito, nunca os visei nas minhas críticas. Há uma outra explicação: a administração e a direcção de serviço lhes podem ter “pedido” para que escolhessem um lado e, natural foi que tivessem escolhido o lado mais forte. A administração do Hospital de S. João esfregou as mãos de contente. Porém, não escolheram o lado da verdade. De todo. Se tivessem dito aos jornais a opinião que me manifestaram, o desfecho seria totalmente diferente. A administração do Hospital de S. João e a Direcção do meu serviço não teriam outro remédio senão demitirem-se.
Quanto a não se reverem nas minhas posições é natural porque já não são internos e já não fazem 72 horas em 4 dias e nem têm programas de formação.
Quanto a atitudes inadequadas, essas afirmações já tinham sido feitas pelo meu Director de Serviço e tinham já sido publicadas nos jornais e já me tinha referido a elas. Gostaria no entanto que concretizassem de uma vez por todas que atitudes são essas. Não podemos ficar por uma frase avulsa como esta, que me parece mais uma frase arbitrária do que algo concreto ou uma tomada de posição. É uma frase arbitrária e caprichosa.
É de estranhar que um médico interno inexperiente, sujeito àqueles horários e a uma falta de descanso e sono grotescos, agora seja acusado de atitudes inadequadas, sem concretizarem. Referir-se-ão a minha irritabilidade em relação a alguns deles e alguns elementos de enfermagem, em situações pontuais, geradas em ambiente de trabalho intenso, onde é normal haver alguma tensão? E as vezes em que eu era insultado por muitos cirurgiões? Porém disse e escrevi publicamente que esses episódios eram, na minha óptica, devidos a extrema carga laboral a que eu estava sujeito. Qualquer médico pode confirmar que a falta de descanso origina muitas coisas, duas delas são a irritabilidade e a falta de atenção, o que pode levar a erros médicos.
A posição deles ao longo das suas vidas como profissionais do serviço tem sido a seguinte:
Quase todos me manifestaram por várias vezes a sua revolta pela forma como foram tratados como internos de especialidade; muitos deles afirmaram que se tivessem de escolher a especialidade hoje, nunca escolheriam a Cirurgia Cardiotorácica; alguns até disseram que no serviço nenhum deles se sente feliz e por várias vezes tentaram convencer-me a repensar a minha escolha e a mudar enquanto era tempo; aqui é revelado um pormenor estranho, em vez de incentivarem um colega mais novo a abraçar e interessar-se pela especialidade, desencorajam e incentivam-no a mudar para uma outra. A sua afirmação de que estavam reunidas todas as condições para a integração dos novos internos é, deste modo, totalmente descabida e falsa, no meu caso. Os mesmos admitem que foram roubados das suas vidas e extorquidos de vários dos seus projectos pelo sistema. Quando referi a muitos dos que assinaram o comunicado que já deviam ter-se revoltado contra esse sistema há muito tempo, que os salários que recebem pelo trabalho que fazem é humilhante e que o tratamento a que ainda são sujeitos como especialistas, pelo Ministério da Saúde, é inaceitável, todos concordaram ou pelo menos, nenhum deles negou.
Muito me espanta que agora, que estou a lutar por o que não tiveram a coragem de lutar, venham tomar essa posição. Foram explorados e maltratados, fizeram das suas vidas autênticos infernos, porém sempre toleram calados todos os abusos. Os sinais destes abusos revelam-se na sua dita infelicidade para com a especialidade, na sua amargura tantas vezes demonstrada, na sua visão catastrófica e lúgubre da especialidade e, sobretudo, na sua recusa em aceitar que internos como eu não tolerem os abusos que tiveram de tolerar.
Mas há um outro aspecto: eis os colegas que já têm as suas carreiras feitas e que, segundo indica o seu comunicado, não desejam que eu continue a trabalhar no serviço sem, no entanto indicar motivos fortes e insupríveis para isso. Pura arbitrariedade! Que direito eles têm de destruir as vidas dos mais novos? O que eu tenho a dizer sobre isso é o seguinte: Por mais vontade que agora demonstrem de ter alguma paz com a minha saída do serviço, não farei nada com o único intuito de os fazer felizes. Não é porque querem que devo sair. Este grupo tem de perceber que o serviço de Cirurgia Cardio-torácica é um espaço neutro, que não lhes pertence, onde chegam os que tiveram o mérito de lá chegar e de onde só saem se houver os tais motivos insupríveis ou se os próprios assim o entenderem. Longe vai o tempo em que os seus próprios superiores os tratava abaixo de cão e com as piores arbitrariedades. Os meus colegas têm de perceber que os tempos estão a mudar, que está na altura de uma geração de abusadores, conformados com o abuso, explorados e rancorosos dar lugar a um que tem de lutar sim e muito para o sucesso pretendido, mas que é tratado com dignidade e respeito e que não está ao alcance desse abuso de poder e arbitrariedade. Os tempos em que os seus caprichos mandavam e desmandavam nas decisões sobre quem ficava e quem saia dos serviços estão a chegar ao fim e, garanto-lhes que não me ejectarão do serviço por pura conveniência.
Ao grupo queria dizer que terão de me engolir, quer gostem, quer não gostem e que só sairei do serviço quando forem buscar os ditos motivos insupríveis. Até chego a pensar que talvez haja outros motivos de que nunca me deram conhecimento. Mas se não me dizem e não dizem a ninguém é porque não são importantes ou não existem. Se isto acabou de se transformar numa guerra entre mim e os meus colegas, tenho de lhes informar que tenho ainda muitas energias e que terão de suportar a minha presença por muito mais tempo. Só sairei do serviço no dia em que inferno congelar. Não conseguirei continuar de modo algum a minha vida sabendo que fui por eles roubado de tudo por que lutei durante quase duas décadas, só porque não vão com a minha cara ou com a minha personalidade. Não serão estes colegas que destruirão a minha vida, uns por acção, outros por omissão, outros por pura traição. Se quiserem realmente entrar nesta guerra e tiverem mesmo a intenção de me derrotar, devo lhes dizer que mesmo que perca, vou vender muito cara a minha derrota. Não deixarei que me apliquem a mim os métodos aplicados a eles. Portanto, vejo um futuro com uma de duas saídas: ou os meus colegas terão de engolir o seu orgulho, deixar-me continuar sem restrições a minha formação, ou o inferno congela. Que tenham também o seguinte dado em mente: já lidei durante a minha vida com pessoas que eram capazes de fazer tremer o próprio diabo, portanto nada me intimida. Todo o meu percurso até aqui preparou-me para quase tudo na vida, portanto
Et a nous maintenaint, mes amis.
Como posso não ter perfil para Cirurgia Cardio-torácica?
Vejamos,
Trabalhei por diversas vezes com os seguintes: Adelino Leite Moreira, Ricardo Nunes, Rodrigues de Sousa, Vítor Monteiro, José Pinheiro Torres, Jorge Casanova, Luís Gonçalves. Muitas vezes alguns destes (Adelino Leite Moreira, Vítor Monteiro, José Pinheiro Torres, Jorge Casanova) afirmaram que não tinham nada apontar quanto ao meu desempenho como médico do serviço. Todos eles teceram-me aliás rasgados elogios, quer quando estive no serviço em funções, quer depois dos acontecimentos que despoletaram a minha saída. O próprio Dr. Luís Gonçalves admitiu que eu tinha feito em três meses o que ele não tinha feito num ano, aquando do seu internato.
O próprio Dr. Paulo Pinho, o grande mentor de todo este abuso, disse-me um dia que eu haveria de ser o líder do Serviço. Podem negar tudo agora, mas a verdade é só uma.
Todos eles, sem excepção reconheceram, por diversas vezes, que enquanto internos e até enquanto cirurgiões, cometeram erros muitos mais graves do que o que eu cometi. Uns nem sequer consideram o episódio um erro médico, um erro de análise ou negligente, mas sim uma desatenção. Portanto, entram aqui outra vez em contradição dizendo que tive essas atitudes enquanto interno de Cirurgia Torácica, tendo já afirmado que eles próprios cometeram erros. Gostaria que explicassem também esta contradição.
Quanto aos médicos com quem nunca ou raramente trabalhei e com quem raramente falei (Dr. Fernando Barreiros, Dr. António Graça, Dr. Pedro Bastos), nem se compreende como podem emitir opiniões quando ao meu desempenho no Serviço. Apesar de respeitar, não posso dar crédito a essas opiniões.
No entanto, continuo a afirmar que nada muda quanto a minha admiração por todos eles como profissionais. Para mim, foi sempre deslumbrante trabalhar com eles e nunca me poderão acusar, se forem honestos, de falta de empenho ou solidariedade, de deslealdade ou de incompetência profissional.
Obviamente que vou levar esse comunicado em consideração e concordo quando dizem que a situação actual de conflito é perturbadora para um saudável ambiente de trabalho no serviço. Seria perturbador para qualquer ambiente de trabalho, onde quer que fosse. Porém, nunca o desejei. Como pode não ser perturbador para o país estarem a pagar a um médico um salário sem que este produza na sua actividade clínica? O salário sai dos bolsos dos contribuintes e considero que isto é um roubo a todo o país. Se não há motivo para que eu esteja afastado, que eu seja reintegrado imediatamente. De outro modo, estão a usar os cofres do estado e os bolsos de todos os portugueses para satisfazerem caprichos e praticarem abuso de poder. Isto sim, é perturbador se levarmos em conta os milhares de casos silenciosos pelo país. Isto sim é um motivo forte para condenar um país ao sub-desenvolvimento, a mediocridade ao capricho das instituições. Isto sim, devia acabar de uma vez por todas.
Porto, 24 de Julho de 2009
Gilson João dos Santos Alves